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QUAL O PREÇO DA CONVICÇÃO? MARINA E TEBET, QUE JÁ FIZERAM DURAS CRÍTICAS A LULA, AGORA CAMINHAM COM O PT




A política permite mudanças de posição, novas alianças e até reconciliações que pareciam impossíveis. Mas também permite ao eleitor cobrar coerência de quem pretende representá-lo.
É justamente essa cobrança que volta a atingir Marina Silva e Simone Tebet na eleição de 2026.
As duas já fizeram críticas duríssimas a Luiz Inácio Lula da Silva e ao PT. Depois, aproximaram-se do petista, integraram seu governo e passaram a defender o mesmo projeto político que anteriormente combatiam.
Agora, com a disputa eleitoral novamente nas ruas, antigas declarações voltam a circular e levantam uma pergunta simples: quanto vale uma convicção política quando o cenário muda?


Marina já chamou Lula de corrupto
A trajetória de Marina Silva talvez seja o exemplo mais evidente dessa transformação.
Marina construiu parte importante de sua história dentro do PT e foi ministra do Meio Ambiente durante o governo Lula. Depois rompeu com o partido e passou a disputar espaço político contra antigos aliados.
Na eleição de 2014, depois de ficar fora do segundo turno, declarou apoio a Aécio Neves contra Dilma Rousseff.
Também apoiou o impeachment de Dilma.
Mas uma das declarações que mais chamam atenção aconteceu durante a campanha presidencial de 2018.
Questionada diretamente sobre Lula, que naquele momento estava preso, Marina respondeu que o considerava corrupto.
Não foi uma declaração feita por um adversário tradicional da direita. Foi pronunciada por alguém que havia passado anos dentro do governo petista.
Anos depois, porém, Marina se reconciliou politicamente com Lula, apoiou sua candidatura e retornou ao Ministério do Meio Ambiente.
A mudança foi profunda.
E é legítimo que o eleitor pergunte o que mudou.


Simone Tebet fez acusações ainda mais pesadas
Com Simone Tebet, a mudança aconteceu em intervalo ainda menor.
Durante a campanha presidencial de 2022, Tebet fez ataques contundentes ao histórico dos governos petistas.
Em debate, associou o PT ao mensalão e ao petrolão e responsabilizou Lula politicamente pelos grandes escândalos que atingiram seus governos.
Naquele momento, Simone tentava apresentar uma alternativa tanto ao bolsonarismo quanto ao petismo.
Terminou o primeiro turno com pouco mais de 4% dos votos.
No segundo turno, decidiu apoiar Lula contra Jair Bolsonaro.
Poucos meses depois, assumiu o Ministério do Planejamento no governo Lula.
É justamente essa sequência que seus adversários exploram agora.
Uma candidata que apresentou Lula e o PT como responsáveis por graves problemas políticos do país acabou integrando o governo que anteriormente criticava.


Mudar de opinião é permitido. Explicar também deveria ser
Nenhum político é obrigado a carregar exatamente as mesmas posições durante toda a vida.
O cenário muda.
As pessoas mudam.
As circunstâncias mudam.
Mas existe uma diferença entre mudar de opinião e simplesmente esperar que declarações anteriores desapareçam.
Marina e Tebet têm todo direito de explicar por que passaram a enxergar Lula de maneira diferente.
Da mesma forma, o eleitor tem direito de comparar o que disseram antes com aquilo que defendem hoje.
É assim que uma democracia deve funcionar.


São Paulo entra no centro dessa discussão
A eleição para o Senado aumenta ainda mais o peso desse debate.
Em 2026, cada eleitor paulista poderá escolher dois senadores.
Isso transforma São Paulo em uma das disputas mais importantes do país, porque os eleitos terão oito anos de mandato e participarão de decisões que vão muito além da aprovação de projetos.
O Senado analisa indicações para o Supremo Tribunal Federal, autoridades de órgãos importantes e também possui competência constitucional para processar e julgar determinadas autoridades nos casos previstos pela Constituição.
Por isso, a eleição não pode ser tratada apenas como uma extensão da disputa presidencial.
O eleitor está escolhendo quem terá poder durante quase uma década.


Do outro lado, a direita tenta apresentar seu contraste
É nesse ambiente que adversários de Marina e Tebet tentam construir uma comparação com nomes ligados à direita paulista.
Guilherme Derrite carrega principalmente a bandeira da segurança pública.
Policial militar de formação e ex-secretário da Segurança Pública de São Paulo, construiu sua projeção política falando sobre criminalidade, sistema penitenciário e endurecimento das leis contra criminosos.
Sua trajetória oferece à direita um discurso simples: experiência operacional transformada em atuação política.
Outro nome apresentado nesse campo é André do Prado, cuja carreira foi construída principalmente na política municipal e estadual.
Sua história passa por mandato de vereador, prefeitura e Assembleia Legislativa, onde chegou à presidência da Casa.
Nesse caso, a aposta está na experiência administrativa e na relação com municípios paulistas.


O eleitor terá de comparar histórias, não apenas discursos
Marina Silva e Simone Tebet certamente apresentarão suas próprias explicações para as mudanças ocorridas nos últimos anos.
Também terão propostas e argumentos para justificar por que hoje caminham politicamente ao lado de Lula.
Mas suas declarações anteriores existem.
Foram públicas.
E fazem parte de suas trajetórias.
Não cabe apagar essas falas porque uma nova eleição começou.
Da mesma maneira, os candidatos da oposição precisam ser avaliados pelo que fizeram quando tiveram poder, e não simplesmente pelo discurso que apresentam durante a campanha.


Qual o preço da convicção?
Essa talvez seja uma das perguntas mais interessantes da eleição paulista.
O debate não precisa ser sobre Marina ou Tebet terem mudado de posição. Políticos podem mudar.
A questão é saber por que mudaram e se o eleitor considera essa explicação convincente.
Quando alguém chama um político de corrupto e anos depois passa a integrar seu governo, existe uma mudança que merece explicação.
Quando alguém associa um partido aos maiores escândalos políticos do país e meses depois aceita participar daquele governo, também existe uma mudança que precisa ser confrontada com suas próprias palavras.
Em outubro, o eleitor paulista terá dois votos para o Senado.
Antes de apertar o botão da urna, talvez valha fazer uma pergunta que serve não apenas para Marina Silva e Simone Tebet, mas para qualquer político:
quando o poder muda de lado, a convicção permanece ou muda junto com ele?
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